Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A Malabarista

Escolinha a quanto obrigas...

Eu saí da casa dos meus avós para escola. Não houve cá infantários, creches ou extrenato. Tinha avós livres por isso coube-lhes a missão de me aturar até à entrada para a primeira classe.  Isto teve coisas boas e más. As boas eram passar os dias a brincar, dormir longas sestas, andar na rua, conhecer a vizinhança (toda com mais de 40 anos) ir para o parque dez vezes ao dia, conhecer de cor o som das chaves do meu avô quando  ele vinha nas escadas, ir ao pão, ao queijo, e outros mandados de extrema importância.

As más, assim que eu me lembre vivamente, era não ter companheiros de brincadeira fixos. Isto teve duas consequências: não me calar a pedir um irmãozinho aos meus pais (que só chegaria 6 anos mais tarde, e não era bem o que eu estava à espera, afinal de contas o que eu queria era alguém igual a mim de idade) e sofrer de excesso de sociabilidade. Exemplo: não havia sítio no universo onde ao mínimo vislumbre de alguém vagamente da minha idade, eu não atacasse: "Olá, queres ser meu amigo?".

 

A entrada na escola primária foi um marco importante. Sonhava com isso, passava na escola e queria ficar lá, aprendi a ler antes de lá chegar e já fazia umas contas de somar e subtrair básicas, suspirava na montra da papelaria. Só não contava os dias de forma decrescente porque ainda não sabia. E adorei tudo desde o primeiro minuto que me sentei na secretária com uma sala cheia de gaiatos e gaiatas e uma professora daquelas old school, muito imponente e sábia.

 

Ora a entrada da minha filha no seu primeiro dia de aulas está a ser uma catástrofe épica. Daquelas em que a mãe está mais excitada do que a miúda. De nada valeram os esforços dos últimos tempos para tornar este dia memorável. Deixei-a a chorar desalmadamente.

Vejamos, eu o pai e o mano fizémos tudo para que a coisa fosse saudável, positiva e alegre. O pai explicou-lhe como era a escola dele, o que gostava, que livros ía ter, ofereceu-se para levar a pequena na primeira semana e até prescindiu do lugar dele na cama para que ela se sentisse mais segura. O mano fez o que pôde, que o coitado é mais novo por isso só percebe que ela vai para uma escola grande e que tem um trólei que ele gosta de puxar por ela. Deu beijinhos e miminhos, o que dá sempre para enternecer. Esta mãe só não fez o pino.

 

Ontem levei-a à minha faculdade. Parece que em pleno século XXI as matrículas ainda são presenciais - nem para o 1o ciclo senhores, modernizem-se! Lá fui com ela pela mão a um sítio gigante, cheio de gente por todos os lados, explicando-lhe que "a mãe ainda não tem amigas, não conheço ninguém, tal como tu, mas é normal filha"; "a mãe já é crescida, a avó já não vem com a mãe a estas coisas e um dia tu também já não vais querer que a mãe venha contigo"; ou o meu preferido: "é o traje académico. e a mãe não te sabe explicar porque é que estes meninos insistem em vestir-se como se fossem para Hogwarts e achar fixe. não, a mãe não se vai vestir assim, e sim, parece que vão todos para a festa do dia das bruxas.".

 

Achei que a coisa correu bem. De volta a casa arrumámos a mochila, respondi a todas as questões existênciais, vimos desenhos animados e ela quis ir para a cama cedo porque era dia de aulas. Hoje também estava tudo pelo melhor, saltitou até lá, tirámos fotos, perguntou mil vezes se já estava na hora, e depois a choradeira. O dilúvio total.

 

Agora antecipo mais uma semana disto até a coisa estabilizar. Muito mimo, muito consolo e muito faz-te à vida rapariga. Quem diria que a escolinha ía obrigar a tamanho esforço psicológico!

crayons-1209804_640.jpg