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A Malabarista

Compras de sábado de manhã

Na fila do supermercado um casal da minha idade compra essenciais para o seu fim de semana: preservativos, papel higiénico, toalhitas, água e bebidas isotónicas.

 

O primeiro pensamento na minha cabeça foi "ainda bem que estou safa destes filmes". Enquanto esperava fiquei atenta à conversa: festivais de verão e concertos, a falta de cultura em Portugal, a zanga dos gajos que deu origem à Everything is New, o facto de o Meo Arena ter sido comprado ao desbarato por alguém que era familiar de outro alguém no governo... 

 

 O meu segundo pensamento: nenhum gajo se safava comigo com uma sandaloca destas nos pés:

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(bem, pelo menos nenhum gajo com menos de 80 anos, que quando lá chegar já não respondo por mim)

Do outro lado do espelho...

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 Não vou falar do frio, do acordar cedo ou do simples sair de casa. Tudo isso são males menores. Quero falar de me marcarem uma sessão do IEFP no meio de um bairro social - não tivesse eu crescido na pior escola do distrito de Setúbal e isto seria dramático só por si - sobre o tema "Mobilidade e Emprego".

Lá fui eu. Pontual, com a minha convocatória, depois de estacionar o carro quase quase num eucaliptal, enquanto uma família puxava a brasa a um assador na rua e bebia umas bejecas - sim, eram dez da manhã.

Cheguei, entreguei a convocatória, a senhora perguntou-me duas coisas perfeitamente aleatórias: ano de nascimento e escolaridade. Só porque sim. Sentei-me, com os meus camaradas desempregados.

A senhora apresentou-se, deu-nos os bons dias e seguiu-se este monólogo:

"-Oh! Esqueci-me do retroprojector! Isto vai ser mesmo muito rápido hoje. É assim, se aceitarem uma proposta de trabalho num raio de 50km da vossa casa recebem o apoio X, se for mais de 50km o apoio Y e se quiserem ir para o estrangeiro informem-se que também há apoios. Era só isto. Obrigada por terem vindo."

 

 

 

Bofetadas

Esta foi a semana das bofetadas. Primeiro o Trump, depois o Cohen. 

Na madrugada das eleições acordei pelas 5 e tal da manhã com o puto a tossir. Depois da rotina de água-xarope-ventilan, no regresso à cama pesquisei pelo resultado das eleições e a coisa já estava crítica. Quando umas horas depois se confirmou o sentimento foi simples: BOFETADA.

 

Hoje, sem tosses, acordei com o despertador, para o habitual browsing de notícias ainda no quentinho, e levo outra BOFETADA, com a morte do Leonard Cohen. 

 

Como o dia ainda não acabou e hoje tenho a primeira reunião com o IEFP diria que a semana se encaminha para mais uma monumental bofetada. Let's wait and see. Alguém com uma boa experiência do IEFP? Alguém que tenha sentido que de facto fizeram a  diferença e ajudaram quando foi preciso? Anyone?!?

 

 

Somos um país de Taxistas

Segunda-feira é um dia cheio de aulas para mim. Fui sabendo dos pontos altos da manifestação dos Taxistas contra a Uber pela minha bff, que colada à televisão enquanto trabalha (luxos de freelance writer) me enviava whatsapp furiosamente.

 

Eu tinha 18 anos quando me meti pela primeira vez num táxi sozinha. Do Terreiro do Paço para os Restauradores, porque estava atrasada para apanhar o combóio. E a primeira vez chegou para ser alvo de impropérios. Primeiro o clássico bufar por a corrida ser pequena, depois o assédio surreal do típico taxista e de convites impróprios, terminou a enxovalhar-me porque ele não tinha troco. Nunca mais andei de táxi sozinha.

 

Por isso não é de estranhar que a Uber tenha sido a melhor coisinha que surgiu (depois do passe social, claro) desde há muito. Gosto da escolha. Da simplicidade. Da cortesia, da limpeza e da amabilidade. Gosto que tenham assentos para os miúdos, que se preocupem com a temperatura, a música e acima de tudo que me respeitem quando quero falar e quando quero estar calada. 

 

Um Uber não é um táxi. Não é (para já e nos termos da lei) um transporte público. Não o sendo cumpre na perfeição o seu papel. Que seja preciso legislação adequada a um novo modelo de negócio não discuto. Agora que os senhores taxistas precisam de acordar para a vida, aí não há volta a dar.

 

E não são só os taxistas. Na verdade, somos um país de taxistas. Tanta energia reaccionária que podia ser aplicada na inovação e na melhoria própria. É impressionante como é sempre mais fácil culpabilizar os outros do que fazer algo para mudar o que não está a resultar.

 

Desejo que os taxistas (os literais e os outros) evoluam.

A minha sugestão para os taxistas é que durante um dia inteiro circulem gratuitamente. Convidem as pessoas a entrar em carros limpos, com música agradável para todas as distâncias. Esqueçam o futebol, deixem os palitos em casa e abram a porta às senhoras. Quem sabe é um começo para que a confiança se comece a conquistar. 

 

A minha sugestão para os outros... fica para outras núpcias. 

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Expliquem-me.

Como é que eu chego à sexta feira da primeira semana de aulas com quilos de trabalhos, livros para ler, ensaios para fazer, testes marcados, orais agendadas, apresentações e discussões, todo um calendário já definido e organizado, daqui até Janeiro.

 

E a malta das outras faculdades ainda anda a brincar ao "Vou para a escola do Harry Potter", com um traje mil vezes mais feio, gritando alarvidades em nome próprio e contra as outras faculdades, devidamente alcoolizados às duas da tarde. O que é que me está a escapar?

 

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Expliquem lá.